quinta-feira, 9 de julho de 2009

Obras de José de Alencar em Essas Mulheres



Livre adaptação para a TV dos romances Senhora, Diva e Lucíola, de José de Alencar, na novela Essas Mulheres, de Marcílio Moraes e Rosane Lima, escrita com Bosco Brasil e Cristianne Fridman. Tema de discussão do 3º encontro do Clube da Leitura, projeto de extensão do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará, realizado no dia 04 de julho de 2009, na Casa José de Alencar, em Fortaleza-CE.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Senhora

Senhora, considerado um dos maiores romances urbanos de José de Alencar, trata de uma história de amor que mistura desejos de ambição e de vingança. Aurélia Camargo esbanja sua incomparável beleza pelos bailes da alta sociedade fluminense do século XIX. Possui apenas um desejo: casar-se com Fernando Seixas, homem a quem sempre amou, e submetê-lo a humilhações sucessivas durante a vida de casados. No decorrer do enredo, seus sentimentos se confundem; porém, seu objetivo é claro: humilhar aquele que um dia a humilhou. Fazê-lo pagar pela dor e rejeição que sofreu quando foi trocada por Adelaide Amaral.


Apesar da personalidade firme e decidida que possui, Aurélia aparece, em diversas situações, como uma moça frágil, romântica e sonhadora. Na verdade, pode-se dizer que toda a sua “dureza” se desenvolveu a partir dos “golpes” que levou da vida. E não foram poucos! Foi criada apenas por sua mãe, D. Emília, em meio à rejeição de sua família materna e paterna e aos escassos contos de réis que deixara seu pai, Pedro Camargo. É assediada pelo próprio tio, Sr. Lemos. Apaixona-se perdidamente por um homem que a troca por 30 contos de réis e uma posição em Pernambuco. Perde o irmão, Emílio, e a mãe sem ter a mínima condição de arcar com os gastos do cortejo. No entanto, herda uma riqueza imensurável do avô paterno, Sr. Lourenço Camargo, que, antes de morrer, retratara-se com a neta a fim de fazer valer a memória do filho, no qual nunca acreditara que tinha constituído uma família, mas que documentos comprovaram o que dizia. E é através dessa fortuna que brotam o orgulho e a soberba em Aurélia e a sede de vingança daquele que não fez questão de se importar com seus sentimentos.

Constitui-se, então, um casamento por conveniência, uma vida de aparência ante uma sociedade hipócrita e corrompida. A relação entre os dois torna-se praticamente envolta de ironias e sarcasmos. Contudo, a lembrança de tempos que poderiam ter sido felizes vem à tona na mente de ambos, mas nem por isso dão o braço a torcer...


Realmente é uma história para ser lida do começo ao fim, como todas que foram escritas pelo grande romancista, na qual aparece explícita a ideia de que o ter vale bem mais que o ser. Tudo se resume a aparências e negócios, acordos mercantis e felicidade postiça. Amor, paixão, luxo, ganância, soberba, orgulho e sentimento de rejeição e de vingança enriquecem essa primorosa obra de José de Alencar.


por Edvander Pires

Dica de Livro: A Viuvinha



Mais um dos romances de José de Alencar que se propõe a capturar os costumes da sociedade carioca. A Viuvinha retrata a história de Carolina e Jorge que, à véspera de se casarem, sofrem um duro golpe do destino.

Jorge descobre-se falido e comete suicídio de maneira misteriosa. Carolina resguarda-se por cinco anos em luto pelo marido e luta com seus próprios sentimentos quando um enigmático viajante chega à cidade. A partir daí, o enredo revela diversos mistérios esquecidos e revive antigas paixões...

Lucíola

Lucíola, que faz parte da galeria dos romances alencarinos que esboçam perfis femininos, inicia-se por um pequeno texto intitulado “Ao autor”. Nele, sob o pseudônimo de G.M., o romancista explica a gênese do livro e sua constituição narrativa, privilegiando aspectos como a ambivalência verdade/ficção, a trajetória trágica de uma figura feminina e a questão da moral nos textos literários. Esta pequena introdução, de apenas uma página, tem importância crucial para a compreensão da obra, já que oferece dicas valorosas sobre o tema, a protagonista e o processo de elaboração ficcional.

Na primeira metade do livro, Lúcia desponta na exuberância da sua beleza que, em um primeiro momento, evoca sentimentos pueris, quase inocentes; no entanto, sua sensualidade latejante não custa a se manifestar. Quando é assim manifestada, na luxúria e concupiscência, Lúcia vê-se comparada a animais, quase sempre bichos encantatórios e vorazes, prestes a dar o bote inebriante e venenoso em suas vítimas. Sua presença voluptuosa era capaz de despertar desejos ignominiosos e incontroláveis. Essa faceta pervertida e bacante da personagem rende cenas vivazes e picantes, com descrições detalhadas de cenas sexuais, com certeza audaciosas para o espírito conservador da época.

Lúcia, entretanto, tem uma outra forma de distinção, que supera o erotismo das cenas mais ardentes: a inteligência e a argúcia, características consideradas, então, predominantemente masculinas. Através dos sarcasmos e das ironias afiadas e desconcertantes, ela destoa da linguagem doméstica apropriada às mulheres e invade um território marcado pela supremacia dos homens.

Além da verve da palavra, sua autonomia e seu senso de independência contrastavam com os modelos bem comportados do século XIX. Uma mulher sem senhor, rica e que determinava as escolhas amorosas, era muito para uma época que enaltecia a submissão feminina e fincava lugares e posturas pouco maleáveis dentro da conduta moral. Assim, não é somente a sua condição de prostituta que escandaliza a corte, mas, sobretudo, o desapego às convenções sociais e o desprezo às hipocrisias.


Seu reinado, todavia, começa a desmoronar quando permite a paixão por Paulo. A devoção a Dionísio, deus do êxtase e do entusiasmo, da liberdade e da insubmissão, é substituída pelo amor incondicional e humano, que revitaliza os apelos cristãos e morais e opera uma transformação gradual na cortesã. Da bacante que protagoniza festas orgiásticas, como a que acontece na casa de Sá, amigo de Paulo, Lúcia transfigura-se em cordeiro, despede-se da ironia e do sarcasmo e abdica da atração que poderia exercer sobre os homens. À medida que seu amor cresce, a mulher fatal, serpente pecadora, passa a vítima expiatória. Desfaz-se de móveis, joias e roupas, num processo de desnudamento sacrificial. Não é mais a cortesã que se despe para os homens, é a Madalena arrependida que abre mão das posses que indicam qualquer ligação com o seu passado pecador e pregresso.



O passo seguinte no processo de purificação que inflige a si mesma é abandonar a corte e morar com a irmã mais nova, Ana, num lugar retirado. Reclusa, procura uma vida doméstica apropriada a uma mulher honesta. Lúcia, agora Maria da Glória, Maria, como gosta de ser chamada por Paulo, numa clara alusão à castidade da Maria bíblica, não pode, entretanto, purificar-se por inteiro, pois seu passado funciona como mancha que água alguma pode limpar. A morte, enfim, é a única saída para aquela que, pela beleza e independência, reinou num mundo de homens e regras.


O final de Lúcia, romântico por excelência, indica a redenção e a dignidade como os únicos caminhos possíveis para a felicidade. As opções apontadas incluem-se, com certeza, entre os postulados estéticos do Romantismo, que propugnam uma visão idealizada da mulher e uma certa nostalgia em relação aos códigos de conduta humana. No caso específico de Lucíola, o perfil da mulher é a do anjo decaído, vítima das armadilhas insidiosas de mentes pervertidas, que encontra no sofrimento e na morte a cura dos vícios.



Alencar, o grande ficcionista do romantismo brasileiro, montou um painel crítico da sociedade de então, movida por vilezas e ambições. Cortesã não é somente Lúcia, é o próprio tipo de relação que se estabelecia entre as pessoas. Nos seus romances ditos citadinos, essa foi, certamente, a faceta mais explorada: o amor ameaçado pela luxúria e pela ambição.




por Sarah Diva da Silva Ipiranga (2002)

Mestra em Literatura Brasileira pela UFMG; Professora de Literatura Brasileira da UFC.